Inicio / Ciências Humanas / O Universo Simbólico e a cultura humana na sua relação com o mundo em Ernst Cassirer

O Universo Simbólico e a cultura humana na sua relação com o mundo em Ernst Cassirer

Desde seus primórdios, o homem encontrou diversas formas para se comunicar, se relacionar e se expressar, uma destas formas foram as primeiras manifestações artísticas, como a arte rupestre encontrada em várias partes do mundo em abrigos naturais pré-históricas, ou hoje através da arte contemporânea. Ernst Cassirer foi um filósofo alemão, considerado um dos mais respeitáveis nomes do Neokantismo¹.

Em sua obra Ensaio sobre o Homem  Introdução a uma filosofia da cultura humana, Cassirer apresenta um mecanismo para entender a natureza do homem – o símbolo. O empirismo² é acentuado como uma base para entender o homem e sua maneira de viver, as pessoas são dissemelhantes, pois possuem um mundo individual somente seu onde obtém experiências e conhecimentos singulares.  

Assim, Cassirer explora diversos aspectos do pensamento humano, sua afirmação diz que cada ser vive em um universo mental particular, com experiência única e pessoal. O filosofo Uexküll³ diz: “No mundo de uma mosca encontramos apenas ‘coisas de mosca’; no mundo de um ouriço-do-mar encontramos apenas ‘coisas de ouriço-do-mar” (In: CASSIRER, 2012, pg. 45) sua frase nos leva a concluir que cada espécie vivente fornece todos os dados imprescindíveis para compreensão do seu modo de vida e existência no mundo.  

De tal modo, Cassirer utiliza este conceito para delinear o mundo humano e seu funcionamento, ele descreve esse ‘sistema humano’ como um mundo simbólico e esse novo universo simbólico proporciona ao homem a possibilidade de viver uma realidade mais ampla, ou seja, uma nova dimensão de realidade.  

A ideia de um mundo transcendental se disseminou em diversas religiões – seja numa vida perfeita em um paraíso após a morte ou uma evolução espiritual – levou o homem a ter uma esperança, suas crenças em mundos transcendentes levaram a religião a um novo ápice, onde a realidade presente não é necessariamente o foco e sim o que existe após ela ou a recompensa da mesma. 

Uma realidade alternativa tomou lugar significativo na vida do homem, não há nenhum fenômeno natural ou da vida humana que não seja suscetível a uma compreensão mítica, são pensamentos em comum, presentes em todo mundo em condições culturais e sociais distintas.  

Cassirer nos apresenta o que ele chamou de ‘sistema simbólico’ que propiciou um lento processo na evolução do pensamento. Por meio dele o homem desenvolveu um sistema linguístico através: do mito, da arte e da religião. Não resta dúvida de que o homem está condenado a não mais viver em um universo somente físico, mas também em uma dimensão mental, aparentemente o universo simbólico assumiu um lugar primordial na vida do homem. Sua relação com a realidade está inevitavelmente intercedida por uma ‘floresta de símbolos’, que ele não consegue vê-la frente a frente. Cassirer ainda afirma:  

A realidade física parece recuar em proporção ao avanço da atividade simbólica do homem. Em vez de lidar com as próprias coisas o homem está, de certo modo, conversando constantemente consigo mesmo. (CASSIRER, 2012, p.48) 

 É interessante como Cassirer apresenta o homem como um ser simbolista, quando estudamos um movimento religioso, os elementos simbólicos estão inevitavelmente presentes, logo um trabalho que aborda esse tema, é importante começar com este referencial de viés histórico, filosófico e antropológico, o homem em si não pode fugir da realidade, antes adapta esta realidade a sua vida, assim ele logo percebeu que não se encontra em um ambiente exclusivamente material, sua existência faz parte de um universo simbólico cognitivo, sendo que; a linguagem e a religião fazem parte desse mundo.  

Esse universo simbólico ultrapassou a realidade humana e a partir de diversas formas simbólicas e ritos religiosos, suas explicações e respostas sobre variados assuntos ocorrem através desse processo de síntese de entendimento e expressão, diante dessas diversas formas o homem acaba por não viver em um mundo real com problemas reais, mas vive em meio a emoções e esperanças que esse conjunto pode oferecer segundo a sua visão de mundo. Diante desse fato a linguagem simbólica não exprime apenas ideias e pensamentos, mas também sentimentos e afetos. O homem é identificado como um ser pensante e simbolista, ao mesmo tempo em que sua evolução racional é notada, seu sentimento e afetos são expressos através de elementos simbólicos: símbolos, ícones, logos e outras tantas formas de expressão.  

Essa conclusão levou a expandir a definição do homem, ou seja, em vez de definirmos o homem apenas como um animal racional, o mais correto seria defini-lo como um ser simbólico. Para Cassirer, a filosofia antropológica em procedimento consegue indicar a diferença peculiar do homem e atingir a via que ele abre a partir desse traço: o caminho para a civilização e o convívio social no âmbito material, mental e espiritual.  

Mito e Religião  

Não existe uma definição única para o mito e a religião, pois não há uma sistemática lógica e universalista que os abarque em totalidade, o que aponta que o mito e a religião não podem ser descritos somente pela razão, pois seus aspectos e características aparentemente vão além.  

Cassirer aborda Kierkegaard um filósofo e teólogo dinamarquês em seu livro, o mesmo descreve a vida religiosa como um grande paradoxo, a religião seria como um enigma que todos buscam desvendar, assim experimentar e viver essa realidade – a base empírica – seria uma postura mais apropriada segundo o autor.  

Para Cassirer as religiões defendem uma verdade irrefutável, além de oferecer uma promessa de uma vida transcendente, elas são amplamente divergentes e dificilmente existe uma relação em que todas possam ser ligadas, são visões, tradições, doutrinas, dogmas e princípios singulares de cada uma.  

Fazendo uma ponte com as comunidades primais que através de símbolos da natureza, esses povos teceram suas crenças, estabeleceram seus deuses como forças da natureza, por exemplo, Kinich-Ahau deus do sol da cultura Maia, ou no caso de Chac que era o deus da chuva, representado por um guerreiro onde suas lágrimas cairiam na terra. As chuvas regariam as plantações, assim além de ser o deus da chuva Chac se tornou o deus da agricultura pela manifestação simbólica que ele encerraria em si.  

O símbolo e o mito permitiram que o homem experimentasse uma nova realidade, um mundo além do visível, o homem já não visto como um ser somente racional, mas também simbólico, não só em questões materiais, mas também em questões espirituais do Sagrado. De certo modo uma crise na evolução do pensamento pode surgir, seus anseios e curiosidades mais imediatas, são deixados de lado para que experiências transcendentes possam ser exploradas. Através dessas reflexões é visível o quanto o símbolo é a marca do ser humano e das religiões e crenças de diversas culturas e sociedades de diferentes épocas, e a busca por Deus permite especular sobre um mundo além do visível.  

1- Filosofia que se dedica às pesquisas psicológicas, lógicas e morais, desenvolvidas por Emanuel Kant (1724-1804).
2- Tipo de conhecimento adquirido a partir da observação e da experiência.
3- Jacob Johann Von Uexküll (1864-1944) biólogo e filósofo estoniano.

Referências Bibliográficas

CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o Homem: Introdução à filosofia da cultura humana. 2ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

Sobre Adilia Mical

Adilia Mical é Bacharel em Teologia pela Faculdade Messiânica e graduada em Multimeios Didáticos e idealizadora do Ateliê.

Confira também

A reconstrução social e espiritual no pós-guerra na visão de Meishu-Sama seguindo o conceito de Paul Tillich

A segunda guerra mundial foi um elemento da revolução mundial, a mesma moldou a sociedade …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *