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O caminho da crença segundo Charles Sanders Peirce

Em sua obra A fixação da Crença (1877) Pierce faz uma reflexão e explora como funciona a fixação das crenças. Segundo ele, métodos não científicos eram impossibilitados de levar ao avanço deste conhecimento. Em suma, todo conhecimento se baseia em alguma crença como forma de conduzir ao futuro.

A crença é um preceito de ação, uma tradição de pensamento, é tudo aquilo que nos encoraja a seguir um caminho que a crença aponta e através dela alcançamos confiança no futuro abrindo assim um campo de probabilidades. Com a crença é possível traçar um futuro, pois a mesma proporciona conforto e um alento em busca do Sagrado.

Pierce começa afirmando que “Todo o conhecimento repousa ou na autoridade ou na razão”, porém somente a experiência ensina algo. Assim, a emoção da crença é uma indicação que determinará ou não os nossos atos. A dúvida nunca tem esse efeito, ela é fruto de um estado de desconforto e insatisfação do qual o ser humano luta para se libertar. Assim, a dúvida e a crença têm efeitos positivos sobre o homem, não obstante serem diferentes. Enquanto a crença coloca a pessoa em uma posição em que ela se comporta de determinada forma segundo aquilo que se acredita, a dúvida a estimula a agir até que ela seja destruída.

Pierce diz que, se analisarmos de maneira minuciosa esse assunto, é possível ver que não existiu um único dos nossos credos que tenha permanecido intacto, porém a mudança é tão vagarosa que permanece imperceptível durante a vida. Sendo assim, a crença individual conserva-se sensivelmente fixada e de longa permanência.

O autor afirma: “o homem julga que se conseguir manter-se fiel a sua crença sem vacilar, isso será inteiramente satisfatório”. Uma crença religiosa tem seus dogmas, doutrinas e até mesmo estilo de vida, sendo assim quando alguém decide seguir esse caminho, estarão dispostos a seguir todos esses

passos, fazendo isso fielmente ele crê que alcançará sua verdade e satisfação individual.

Vejamos um exemplo interessante, que explica o processo do indivíduo na aceitação da crença. Tomemos esse pequeno fluxograma:

1. Inicia-se com uma dúvida, um questionamento;

2. Busca-se o seu esclarecimento através de questões pertinentes à dúvida levantada;

3. A obtenção de experiências no caminho da crença;

4. Quando cessarem todas as dúvidas, a crença se tornará satisfatória e será adotada como um princípio de verdade ao indivíduo;

5. E, dessa verdade pessoal, surgem hábitos (conjunto de crenças) e o processo pode se tornar coletivo.

O fluxograma acima é esclarecedor, pois aponta que, para um indivíduo buscar algo, ele precisa primeiramente partir de um questionamento, “Por quê? Como? Onde? Como funciona? Etc.”. Essas dúvidas são o primeiro passo para se ir atrás da crença e através das respostas obtidas, vêm às experiências que essas respostas trouxeram, ou seja, a prática. Depois que as dúvidas foram esclarecidas, a experiência se tornou positiva para o indivíduo, a crença torna-se satisfatória e é adotada como uma verdade onde através dessa verdade surgem novos hábitos, uma nova vida a ser seguida. Esse caminho entre a dúvida e a crença até a criação do hábito de acordo com a experiência adquirida sobre a ‘verdade’ em questão pode ser aplicada no processo de busca do homem em relação a Deus, onde a dúvida é o princípio de tudo e o esclarecimento delas seria o final.  

Um homem pode viver uma vida inteira, sistematicamente mantendo fora do seu campo de visão tudo o que lhe pode causar algum tipo de mudança em sua vida ou opiniões, porém não se pode afirmar que esse estilo de vida seja um método irracional, pois seu método de estabelecer uma crença é unilateral das outras pessoas. Portanto, o fato é permitir que esse homem viva como lhe convém.  

Mokiti Okada tem reflexões muito interessantes a respeito desse tema. Vejamos:  

A palavra ‘dúvida’ não soa muito bem aos nossos ouvidos. Entretanto, representa o que há de mais importante. Com efeito, a dúvida pode ser considerada a mãe da civilização, pois foi ela que deu origem às novas filosofias, às novas doutrinas, assim como também à Ciência. O Chinês Chu-tzu disse: ‘dúvida é o princípio da crença.’ […] É natural que surjam dúvidas; contudo, duvidar apenas não significa nada. Se as pessoas se dispõem a encontrar a chave desses mistérios, aí sim, a dúvida se torna realmente válida, pois, com tal procedimento, elas entenderão a Verdade e aumentarão seu discernimento. Aqueles que sempre têm dúvidas são pessoas progressistas, e seu futuro é brilhante. Existem, porém, alguns que não têm sorte e que, embora sintam dúvidas, não encontram o lugar onde lhes possa ser mostrada a Verdade. […] é necessário ter coragem de esclarecer as dúvidas. (2010, Pág. 108) 

A dúvida, de certo modo, foi muito positiva para que a civilização se desenvolvesse em diversos campos intelectuais tanto na ciência quanto na crença religiosa, o processo de o homem duvidar das suas crenças e da sua vida é um processo natural assim como ir atrás dessas respostas pertinentes à dúvida.  

Seguindo esse mesmo exemplo é possível fazer uma ponte com o Cristianismo.  A forma como a explicação da vinda de Jesus a terra é uma abordagem de diversos teólogos, mas se partimos do princípio que o objetivo era esclarecer as dúvidas, seguindo o modelo de Pierce sobre a crença, a vinda de Jesus foi uma forma de esclarecer a dúvida naqueles que não acreditavam no Sagrado até sua chegada.O fato de Jesus se colocar na posição de ser humano teria sido fundamental para que criasse empatia. Tomé duvidou, porém, teve uma explicação da parte de Jesus muito interessante. Vejamos o diálogo a seguir:  

“Ora, Tomé, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei. Chegou Jesus apresentou-se no meio, e disse: Paz seja convosco, depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente e Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé creste; bem-aventurados os que não viram e creram.” João 20:24-29.(Bíblia Sagrada, Sociedade Bíblica do Brasil, 2003).  

A dúvida de Tomé – que também poderia ter sido a dúvida de diversos seguidores de Cristo na época – foi essencial para que sua crença em Jesus fosse aceita sem restrições, pois a vida de Jesus terminou em aparente vergonha e fracasso, os seguidores passaram a acreditar devotamente que Ele era Deus, mas somente em 325 D.C no concílio de Niceia a divindade de Cristo foi aceita pela igreja. A partir dessa reflexão é possível ver que a dúvida pode levar o homem à busca por Deus. 

 

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

A Fixação da Crença – Charles Sandres Pierce/ ∗Popular Science Monthly, 12 (November 1877), pp. 1-15

Alicerce do Paraíso Volume 4 – O homem no cotidiano. 5ª Edição. São Paulo. FMO, 2010;

Sobre Adilia Mical

Adilia Mical é Bacharel em Teologia pela Faculdade Messiânica e graduada em Multimeios Didáticos e idealizadora do Ateliê.

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